Terça-feira, Janeiro 03, 2012

(De 14 de Dezembro à noite:)


Subtrai-se ao momento o real.

Subtrai-se depois à escrita o momento.

Epicismos, malabarismos, e descuidos.

Análise e leitura fáceis - o difícil.

E o repetir o zumbir em torno disso? (Exaustão.)

Não me conhecesse eu, e diria falta de motes.

Dela se parte,

em parte.

Aonde se aporta?

Ninguém sabe.

Mas lá pelo meio,

lá pelo meio

após o relâmpago

repõe-se o rumo interior,

um de partida

rumo à obsessão:

poder ou não

estar

no horizonte

feito de motes

e da resposta

à migração

que é querer ser,

Ícaro.

(De 14 de Dezembro, à noite:)


Uma mala e um filósofo. (Que complicação! exclama.)

O relógio pára e recomeça três vezes.

Terminal da referência.

"Estou. Logo, inexisto."

Gente a lavar no rio. Outros que passam.

As metáforas de sempre reitero.

Percorro. Respiro.

Cinza e calçada.

Corropia-se o passeio.

A cidade.

Dupla: tudo e nada.

As pessoas que vêm de encontro.

A atenção já mecânica de não esbarrar nelas.

Desvios. Guinadas.

Um vendedor de castanhas. Uma sirene. Vidas.

Movimentos e espiral.

De fora para dentro, e por fim, de dentro para fora.

Vento.

O vento leva já até as pedras.

Mistura-se o caminho de volta e a infinidade da atmosfera.

Carga e descarga.

Implosão, explosão.

Sobra o vício. Terra só no papel.

Agita-se. Soma-se e subtrai-se terra ao papel.

Como um garimpeiro que procura o ouro. Como um pássaro que debica por lagartas. Como um poeta que anseia pelo mote.

"Vida, vida, vida!"

Palavras.

Estrondos, um cataclismo.

Palavras.

Cenário. O último take.

«Corta!»

Metragem curta.

(De 7 de Dezembro, à noite:)


Um banco de jardim. O peregrino sentado, ou a não produção. Diante, a passadeira congestionada.

Percebe-se a hora. Dá-se passos. Disfarçando o ruído de fundo. Dá-se mais passos. Zumbido mais e mais alto. Acelera-se.

Um carro que quase o atropela. Algures no lapso temporal a atenção. Distraído pela vida, o gingar torna-se ritmo. Em redor, as luzes da cidade.

Há uma arena. Mas não há uma arena.

Há um caminhante que atalha o nexo. Alguém atira um pião. O medo de ele cair faz continuar. Pela tangente da rotação.

Agente que se infiltra na plebe. Que cumprimenta a meia proximidade. Que assim mantém por uma corda bamba o seu próprio entusiasmo e inspiração. Mas que começa a abanar assim que lhe apontam o dedo e o chamam de espião. Meta-teorias da conspiração.

O passo abranda. É agora?

Uma esquina. Interrupção.

Há um estrangeiro que pergunta o caminho. "Where are you headed?" "To discover." "What?" "To where I'm headed first. Then, whatever there is there to find." "Oh, ok. Hmm let's see. That's a tough one.. You know, whatever - Just go ahead and take a turn around the corner. You see the people there? They should be able to tell you. Why don't you go and ask the people?"

...

"But I did. I just asked you."

Asserção certa. Mas certeira?

"How should I know? Why do you insist?"

"Because you're headed there too."

"Oh, give me a break with that misplaced yearn for direction of yours. Go ask someone else."

"The thing is, it's not just about a goal or a place. Not anymore."

"Ofcourse it is."

"Well yes. This was a question about direction.

But what matters now is that you hold the answer.

It is you who shall show me the way.

This is, as of now, about you."

"That can't be. No, no, no. That makes no sense. Who the hell are you after all? Jeese!"

...

A arena aparece agora completa e é circular. Dela, um palco para a imaginação furtiva, que espreita sempre atenta entre as pausas do zumbido, no zumbido das pausas. Flectem-se as garras as quais teimam em desferir continuidade. O domador dá sinais de cansaço. Uma noite que se adensa.

O peregrino deu por si a dormitar. Acorda agora.

Em redor, a cidade sem questões. Está-se sentado num banco de jardim em miniatura. Esta e outra árvore desfolhada permanecem lá. Trejeitos bucólicos de Natureza dispersos pela urbe de pedra e asfalto. Pretensões citadinas, o glamour das mulheres, a poluição dos carros, tudo assenta e perde-se na noite como uma luva de pele. Exterior. Distorções do século XXI.

Mas eis que é hora de retornar ao sossego absorvente do lar. Mete-se Björk, Faith no More, Morphine, Smashing Pumpkins, e peritos outros na arte de serem absolutos na arte. Aqueles por cujos moldes paralelos que constróem se e os ultrapassam e são deuses. Deuses em seus mundos remotos que quase nos abstraem do erro e da presença não divina. Respira-se.

Dorme-se pacificamente o hoje. Amanhã um passo a mais ou a menos ditará enfim as respostas.

(Espera-se.)

O diálogo, em vez do burburinho de fundo.

Quinta-feira, Dezembro 08, 2011

Cara R.,

Fraqueza é atirar pedras do alto de uma varanda improvável. Não me recordo de motivos.

A moral, procurares telhados de vidro por outro lado. Ou então o teu reflexo neles.

Amen.

Domingo, Dezembro 04, 2011


A resposta, será que está na arte?

Sim. Já nas bancas: "Menos Platão, mais Prozac" :D


Pensar na vida = foder uma actriz porno.

É não saber responder à questão: o que é que é a sério e o que é que é a fingir.

Quarta-feira, Novembro 30, 2011


Era uma vez um Samurai. Principia-se assim desta forma duplamente tradicional.

Há pois todo um leque de tradições que se desdobra. Numa cadenciada abertura, empresta ao ar a clássica brisa ligeira de Primavera. É daqueles leques cujas dobras contém pequenos círculos coloridos, e uma figura central de uma ave contida num outro círculo um pouco maior, ou foco.

Por qualquer propriedade mágica, vai reportando ao verde das colinas do Japão e a um inteiro vento que sopra de sob as anteriores lufadas de ar. Um e outro abanão mais vigoroso ou arritmado despedaça a camada envernizada do sítio anterior, onde era o leque e a realidade teórica.

Súbito, diante, todo um ancestral vale nipónico o grande jardim em bruto, a Natureza - arte terrena o espaço de ser, e raízes e arbustos. A nitidez.

Soergue-se um Samurai de entre os pinheiros para um trilho mais aberto que descende onde é a imensidão verde e o céu aberto. A poucas milhas, de onde ele veio, há pendões quebrados por uma clareira oculta na vegetação mais interior da colina. Dá para perceber pelo seu cambalear que se travara uma batalha. Entanto, há algo de sereno no seu rosto marcado por cicatrizes antigas.

Junto a um tronco recupera um pouco o fôlego. Assiste nisto a uma cena simples que por algum motivo o comove.

Uma criança corre entre os prados abaixo. Ante ela, uma garça branca que ascende. Corre movida pela energia e pelo fascínio, os quais persegue acelerando entre os bambús. Rumo ao horizonte com o qual a garça se funde. O branco a côr da inspiração. Cumpre com os seus pulos ainda este ensaio de sonho, os braços bem esticados e as mãos bem abertas.

Observa complacente o Samurai do presente este poético retrato de a infância estar presente. Neste percurso pela paisagem acidentada, uma criança persegue o vôo da garça. Algures num vale em que são remotos os feudos e a civilização, essa breve inconsciência reproduz na alma do Samurai um sorriso igual.

Por algum motivo, a sua vida passada atravessa-se também no momento e desfilam algumas recordações. Lembra-se das suas batalhas. De quando a loucura afirmou a sua defesa, uma espada a levantar. Ser Samurai o recurso maior. Do que ninguém respeitava, soerguera-se a sombra da lâmina afiada. A imaginação e a identidade encontram o escape na distinção, na loucura, ou na presunção delas. O resultado evidente, o recato maior nessa mesma diferença ou isolação. Os tempos são Meiji. Mas ao menos a viva aspereza de suster uma cruzada fez-se sentir no pulso, uno e refortalecido. E as mil perseguições conduzidas pela Guarda Imperial... e a respectiva resistência... E as viagens várias a que se entregara pelas aldeias da região, peregrino solitário entre muitos. E os templos budistas de adoração e estatuária em que seguidamente se deteve. E a alternância cada vez mais acentuada destas duas faces de moeda. Até ao dia de voltar a afiar a espada e travar outra batalha.

Já a graciosidade da ave que se eleva pelos ares arrebata qualquer um de sua mónada.

Há simetria na corrida curva e solta do rapaz pelos prados face ao arco que desfere a garça em antecipação de procurar nova rota, para onde os rios fluam e cumpram com o fluxo a sua sede. Por sobre o míudo que estrebucha lá em baixo, à pequenez da aérea distância um mais ser qualquer incapaz de voar. Por um instante é manifesto entre o bater de asas suave e firme um certo instinto do afastamento, dados os movimentos menos óbvios do petiz. Comum defesa genética ante eventuais confusões maiores. Na realidade do equívoco dela, tais desvios e precipitações pintam sob os céus mais uma variação da beleza da dança deste ser alado. Porque são sinceros. Porque são apenas sinceros. Porque não são outra coisa que simples e sinceros, no claro e definido que precede e é o do vôo continuar.

Num outro lado da vastidão que é a paisagem, a calma pensativa ou a tendencial reserva do Samurai pouco poderá apôr às árvores do bosque. Não mais se retém a viagem da garça, que sobrevoa por fim. A estética auto-contida nas observações do ferido em combate - um reencontro com o rapaz que corre os seus motivos simples, e uma apreciação ao de leve da consonância da garça com os céus e os ventos. Do que é reprodutível disto, a arte do quadro que consiste na essência do resto. Não releva, não é meio nem é fim, mas é inevitável que exista, por haver espírito, este suspiro Caeiriano de traçar com a vista as pinceladas simples que são a criança a tentar o entendimento físico do azul dos céus ou a alvura sublime de os atravessar. Por haver espírito, e se o ter embebido de algo de novo e belo, há antes de mais que deixar expirar o fantástico desses traços ou contornos (óbviamente por expirar), neste que é também e ainda um alternativo acompanhamento estático da criança a correr.

Percebe-se entretanto um pouco mais da serenidade, quase doçura, com que o Samurai fita e transcreve em seu olhar a criança ora ofegante e de mãos nos joelhos. Ele está resoluto. As suas mãos procuram o tantô. É um olhar de despedida.

Porque ninguém lhe deve a continuação de uma batalha proscrita. Porque não há direito a exigir que se feche os olhos à derrota tida. Menos ainda a retomá-la com base em respostas ou argumentos mais. Que quem lhe desferiu o golpe terá as suas próprias batalhas para travar. A batalha era tudo o que pedia. A batalha foi tudo o que teve. O cenário não podia ser mais perfeito, a oposição não podia ser mais apropriada. Não há nada para vingar, nem houve jamais.

O sangue que escorre dos membros do Samurai traduz-se em reminiscência de dôres antigas.

Da parte da derrota que é relativa ao inimigo, subsiste apenas uma melancolia semelhante à da ave descrever uma curva exterior na sua migração itinerante.

Hoje caiu, tropeçou, e arrastou-se pelo chão. E, após repousar sob um pinheiro, teve um esgar de alma afinal ponderado, não feito do desespero ainda que este estivesse lá. Opção, e um tudo nada de altruísmo - o antigo e nobre reduto - Seppuku.

O seu corpo enfim cai com um baque digno de um animal de porte. Num desfecho porém que sintetiza a diferença de ser humano, e que o faz transcender um desses outros animais parados e subservientes. Arrepende-se o Samurai do desfecho? Por certo, pois não o quis. Mas não se arrepende o Samurai de si no desfecho.

Como sempre, agradece-se ao próprio verter do sangue a possibilidade que este lhe oferece de depositar pelos verdes solos desta nação perdida nas eras, uma mais marca de passagem. Rubra e quente como um pôr-do-sol.

E de todo o exagero que se põe na vida e na arte, de todo o não ser mais que metade o que se escreve ou tenta, de todo o floreado e de todo o erro, acresce por fim um sentimento claro e inteiro. Uma última expressão do sol, quando tudo perde a côr, e que consegue ainda surpreender o Samurai nesse seu abandôno.

Felicidade.

Porque tal como o vôo da garça se não abate no além, paira a noção de que há uma outra simetria - ela também já foi humana. Em todas as suas limitações. Em toda a rasura da sua condição. E constata-se qualquer coisa mais que a fineza da curvatura do seu pescoço esguio na velocidade do seu vôo, mais que a envergadura e a beleza de suas asas, sob a frieza cândida com que almeja o céu o seu olhar, e que decorre de ela já ter sido humana, e de o ter sido muito mais do que à vista desarmada pudesse aparentar.

É na partida do guerreiro que chega a confirmação, sem pensamentos nem dúvidas, e irreversívelmente, da equivalência de espécies. Sob a forma de felicidade por uma garça ter aprendido a voar.

Domingo, Novembro 27, 2011


Saio enfim à rua. Um sol grande cumprimenta-me a dôr de cabeça. Como uma carícia que guarda em si uma certa aspereza por ter deixado a manhã passar. E as côres intermitentes que se colocam aos poucos em fase, num background anónimo... Como numa fotografia exposta em demasia, da qual se deixa esbater o relevo e o além.

De retorno ao quadro soalheiro, consistente em a passada recordar-se da calçada estar ali, a noção branda de perpassar a vida da cidade. E é mais um fim-de-semana que se escorreu no recosto de uns lençóis, como fios de água que se entrenham entre as pedras e se precipitam para o esgoto. Na lateral do caminho, faíscas de sonho ora as beatas extintas por aqui e por ali.

Impõe-se o dia e a vida. Se tivesse que fazer uma peça grega em que um personagem simbolizasse a Morte, chamar-lhe-ia Domingo. Mas não são esses a era e o papel que me estão destinados. Devo hoje sim assentar ao de leve na passagem, encabeçar a máscara de estar de passagem, pelo tempo estritamente necessário até retomar o posto de observação do qual então extrair este trecho. Paisagem ruela de atravessar dois pólos de no fundo a mesma habitação - a do costume.

Ir buscar sim, à Grécia Antiga, alguma estátua do Propósito. Essa sim, a verdadeira meta possível por este não percurso ou descrição. Um outro roteiro de um qualquer místico cruzeiro, e uma qualquer ondulação mágica que então aporte a novos cais ou planetas. Articular então pelas entrelinhas a missiva de uma partida próxima.

Ensaia-se nesta bilheteira que é ainda as traves de uma outra e os pregos, por tatuar na rotina da madeira essa tal aquisição. Veremos talvez um dia o que o nevoeiro do oceano nos reserva. Para já, vive-se este seu sôpro dissimulado pela realidade urbana. E imprime a sua fuligem um distante esboço de arquitectura e embarcadeiro no invisível do lugar.

(Da noite já alta de 22:)


Calcorreio.

Divago.

Prendo as mãos e os pés. Sem dar conta disso.

Bolas, e agora? Estou amarrado na cadeira e chama-se desnorte o meu carrasco.

Grande, opulento.

Não só o tédio que entretanto se entrenha, o principal inimigo sou eu. Uma desatenção ou interferência desnorteou o percurso e quedo-me ali naquela esquina que é sobreposição de hologramas de cidade.

Sem me dar conta, não consigo.

Aúúú.

(Da noite já alta de 22:)


Apagar tudo é o remédio?

Mas... e a seguir?

Diria que é só uma forma de pautar a actividade de estar a olhar para o vazio.

Da mesma forma que martelo cadenciadamente estas teclas. Sim, dessa mesma forma.

Em termos de erros é preciso repetir essa mesma análise.

Não concordas, meu?

Nah. Seria fácil.

Esta é de resto uma hora fácil. No sentido em que se opõe ao difícil. Mas. Sem mais desvios:

Meus caros, eu quero é saber o que fazer deste incontrolável.

Que me impele a zás zás e a mais zás e até a mais...

Zás a mais.

Repetição o motor? O trecho imediato, mais de todos imediato, em termos da facilidade com que o motor de inferência encontra ou estabelece como resposta - uma vez que está ali à superfície da memória.

Trata-se no fundo de desaprender a mania do contexto. Sim, esse drama.

Lubrifiquei a chama, e ela ribombou antes de fazer um ruído pasmo.

Adociquei a hora e ela trouxe-me este vendaval de pequenos monopéptidos.

Quero urinar do alto de um prédio. Esta sim é a minha resposta para a desolação que todos vivemos hoje.

Nenhures vive por violentar.

Existe prédio no drama.

Como ultrapassar a noção escrita da escrita? A inflexão da reflexão? Como?

Desmoronar a sequência. Porque há xilofones nisso.

Preencher o vazio de corropio.

Exaurir a meta ou metáfora. Que é e que somos.

Minha nossa senhora!

Debicai livremente, pássaros de nenhures, sítio universo. Extravasai as mãos que vos sustêm. Aúúú. Uivai até, desafiantes. Desafiantes da condição vossa.

Aúúú.

(Da noite de 22:)


Salas que dão para outras salas. Da arte a arte é querê-la. É a sombra impressionista de algo, a atravessar as salas de um castelo que se diria interminável... Perdendo-se a arte sempre que se fecha a porta. Dormindo-se a arte sempre que a escuridão da hora avançada a absorve.

Temíveis são os passos que as trevas propagam, à nocturna melancolia do castelo e sons de pêndulos, passos de aterradoras criaturas cujos vultos híbridos de lobo e homem passeiam pelos telhados. Podemos chamar de mero exercício de lúgubre, como quem diz "é só um filme, é só um filme, é só um filme". "Vai tudo correr bem, vai tudo correr bem". Mas podemos entrar por ele adentro, habitar nele, ter insónias nele e tremer até aos ossos.

Filme de autor que marca e demarca o raciocínio de estar, mas que rápido é outra pele que cai à hora de apagar o projector e deixar arrefecer as queimaduras. Carne-carvão que relaxa e adormece Inverno dentro.

Antes do tempo o tempo do antes. Momento inclinado numa travessia paradimensional do conceito de atravessar que é em si fim de si.
(Da noite de 15:)


Após remexer do caldeirão n emoções acumuladas em seus fundos, e deixá-lo transbordar um pouco, é difícil interromper a sua fervura. Da rotina repara-se que falha de novo a distracção.

Busco pequenos trechos de arte para carimbar ou lacrar o desconsolo da noite, envelope cuja mensagem fria é estar vazio.

Da lacra derretida em vácuo, algumas queimaduras bem patentes.

Principalmente a insuficiência de tal escape (ou deste, lugar tão comum).

Toda esta sopa, e um só estômago indisposto...

Sábado, Novembro 12, 2011


Timbres negros os contornos
da funérea procissão.
Marcha sem real razão.
A loucura e os transtornos

em forma de símbolos môrnos
do desespero sem causa
na tempestade sem pausa
de uma poesia a transpôr-nos,

emoções negras e trompas
a soá-las estrada fora.
Circunstância e pompas.

Extravagância soturna sem pudôr
de majorar do sofrer a Hora:
além-ânsia, da violação o ardôr.

--

Possessos seres os grifos.
Esvoaça-se todo o Egipto
de amplas asas e um grito.
Fendem da ânsia os cacifos.

Morte alada que sobrevoais
espectros de mitologia
e a ainda maior fantasia,
rapinar humanos; ódios tais.

Encabeço a figura da ave.
Justiça com as garras proclamo
e a carne não lhes é entrave.

Fado merecido p'la arte trucido,
que até o próprio Zeus, meu amo,
p'ró homíneo banquete convido.

--

Pinturas de côr desalmada.
Limpa-se o vermelho do queixo
e a figura em arte deixo
da proibida fome saciada.

Sobre a negrura é alada
a rima-vingança atroz,
do poeta a terceira voz
misantropia consumada.

O tempêro quente do excesso
é o sangue na noite gelada
a irrigar malhas que teço

tôrno à hora fria do ingresso
p'la Catedral que é o Nada;
À dôr e à raiva agradeço!


Grafias e grafismos fáceis. Deixa-se trilhar a inespecífica missão do deixar trilhar-se, adocicando a impaciência de alma. Faz-se.

Uma criada que traz uma agradável taça de laranjas frescas.

Reúnem pois o farto cabelo do Marquês e o agudo discurso de seus convidados, em entabuladas peripécias de uma dialéctica arcaica e estética. Há jardim.

Discute-se as próximas medidas. Como fazer crescer o reino, como desobstrui-lo dos interesses paralelos e estéreis dos Távoras, como encabeçar este País em que a anarquia é a regra real por detrás do mundo de regras.

O mesmo num hemisfério carnal se define, a dança de egos no planeta de Ser. Regra delineada pelos Antigos. Circunvalação. Pelo diurno e nocturno, cintilam prosaicas distâncias à luz desse mesmo firmamento. E regras e protocolos por detrás dos quais é sobretudo o querer mais e mais, e o estabelecer-se socialmente o poder de quem o detém. Toda uma constelação que se define contemporânea de Newton. E hoje se conjectura cómodamente por encostos, nesta confraria de almas que é também caudal de cometa.

De súbito nasce poética e bela uma espontânea imperativa. Aniquilá-los. Que linda e preciosa semente, que perfeita antevisão de rosas sublimes e seus espinhos. Empolga-se a burguesia, os médicos entusiasmados à medida que a imaginação rasga e perfura a pele da dôr para deixar sangrar e florescer toda a fertilidade da sede e dos solos de sua sede.

A criada traz agora um requintado aromático vinho, enquanto os presentes encarecidamente discutem os instrumentos que mais cirurgicamente poderão dar voz ao festim da mortandade. Como a altivez do horror, um belo sol vem agora incandescer o fim-de-tarde, enquanto num entusiasmo soberbo se saliva e limpam-se os dedos, após a dupla dentada nos gomos sumarentos como as veias mais nobres. Um prazer místico cresce e funde-se com o propósito e a sociedade. Instala-se neste promissor Verão, para além dos planos de metas e conspirações genuínas, e por entre as finas dobras de tecidos voluptuosos, o real sabor do sangue na acidez da laranja.

Mancham-se as vestes de mais que um sentido de Estado que transborda. Enleia-se no formalismo das almas o vinho e a fulvura de seus encantos. Verte também na alma o requinte da crueza com que a lâmina repartirá cirurgica a opulência da classe mais alta, estrebucha na alma a mesma vítima inesperada e de suas gôtas vitais a rubra intensidade de seus berros, enquanto sábias mãos estudam a fundura de suas vísceras e se enaltecem da real putridão de seus fígados, enquanto os dentes mergulham e testam a suavidade dos pescoços trémulos e o som de seu pânico se engasga e escorre e morre lentamente.

É Noite; o Sonho desponta. Alto por fim o seu alvor redondo e completo. Ritual e transe acariciam aos poucos esta imagética comum. Fervilham palavras primeiro. Alguém sugere, divino: e se brindássemos mais que o próprio brinde? Ao princípio ninguém percebera. Nem o próprio. Levantava-se taças, ecoando pelos ares o tinir da anunciação. Bradava-se, as gargantas mais e mais inflamadas do pudor e o seu esvair-se acompanhando a secura. Porém, e agora que a Lua tudo ilumina, cedo as mãos se roçam também, ao princípio como parte integral e secundária dos movimentos, inevitável dada a expressiva força do embate. Entanto, de toda esta cosmogonia cedo se clareiam as peles de uma ânsia maior, e maior ainda a cócega de sustê-la na fineza de um brinde. E as mãos se provocam ardilosamente à sonoridade do toque. Tlim-tlim. E os punhos reajem fortes à tremura maior, e se estilhaçam taças e o sangue corre fraternamente entre as mãos que se percorrem e os caracóis que se entruzam, e é com a filosofia maior dos corpos que do Universo dos Gregos o Esplendor de Roma se promulga hoje neste anfiteatro supra-político. E as mãos decretam a Nova Ordem com o ênfase com que no sexo alheio depositam o ardôr de se entressugarem visionários.

...

Que vórtice de conhecimento! Que pasmo e êxtase, o do palato no qual se disseca o amargo do sémen. A real soberania, escrita na biologia dessa real semente. A Magia de que se tingem as rosadas feições dos homens dessa era. Deus contido no Hirto Falo de Todos. Espuma divina com que um mar violenta toda a planície de uma Pátria ou cultura.

E os Homens embrenham-se em lenda e futuro. E os sonhos canibais explodem entre o amor conforme o ditara a necessidade. E a Liberdade, conceito tão másculo e penetrante, cada vez tão mais perto, como a respiração quente do Conde saciado... O Amor pungente, e o extermínio dos Távoras, e o desfolhar-se a mística das árvores e do centenário... E uma criada que se afigura claramente a oferenda ideal para a divindade do Amanhã, que é esta noite... E as almas entrusadas que se alinham em experimentação da mais sórdida e profana...

...

Do Esplendor da Noite, um pequeno montículo por entre os canteiros e um cão que por algum motivo insistentemente fareja em seu redor. Percorre a Aurora as recordações enterradas. Complacente da serenidade com que a manhã lava as côres do jardim, instila e contempla o Marquês, encostado à mesinha do Ontem, um terno sabor a Morte.

«Alguém viu a criada?» pergunta a Marquesa.


Êxtase, caos, destruição, vento, que sopra e que sopra agreste as paisagens, o inferno, a imagem, o inferno da presença, o interior ...

Território, equilíbrio, desespero, terramoto, fendas de fendas.

A queda.

Extasis flows through the keyboard like emotions rampade through the valleys of image and projection of the soul - abyssic nothingness that is art; meaning, lost.

Found insanity repainting the painting of strangest whirling shades of darkness; hidden desires as abstract as the whispers of the clouds in the everlasting skies.

Lost warriors, their flesh scattered through the impressive woods of fantasy dripping through the gelid of the morning. Remains of civilization, spoils of war, liberator to come, the eclipse shining the all-ever sung apocalypse.

It is coming!

Dissera o poeta: "Ó Portugal, hoje és nevoeiro..."

Digo eu (e ele) - É a Hora!

Que a Terceira Vontade
se imponha no amarelo
do negativo sem belo.

Que haja Voz e Liberdade!

Que se retrate do caos
a beleza de eu sê-lo,
a morte de eu vivê-lo.

Do vazio vácuo as naus!

Do clássico rompante
dos mares sempre a montante
há a enorme montanha!

Do turbilhão a cidade.
Ruínas e claridade.

Um topo, ao qual tudo acama.


(De terça-feira:)

Das fórmulas o fascínio, o mote para uma navegação esta em que é pântano o diálogo de crocodilos e mosquitos que são a adrenalina ou o momento, instalando-se muitos e discretos. A cafeína dilui-se nas veias como um composto qualquer incómodo, ao qual se pigmenta o explorador do chapéu inglês numa queda transversal às golpadas de ombro e face com que a vegetação cumprimenta verde e mística o celofane dessa rede circense que sustenta mal o peso das circunstâncias e consequências. Ora o megafone existe então, num peito químico como a fórmula do fascínio, que inaugurara todo esse mesmo espaço, por espectador os primatas assentes na bancada arbórea e o seu ruído, frutífero entre pontuais raios de um solar e agressivo holofote, algures entrevendo-se a arranhada resistência sobre o bote.

Dá-me um par de estalos, a frase rompante e masoquista que é o tigre que listra adjacente o percurso, ora mais e mais o salto pelo aro de fogo em que arde a rejeição e o espectáculo. Um esvoaçar de aves, uma bala de um canhão, mais um café, e os gritos e o terror quando o denso verde se acastanha espiral e a madeira cede num rugido faminto e o avião que era a narrativa se propaga na descida nebulosa e a aceleração é ora propagação explosiva, reservatórios inflamados num horizonte temeroso ou pós-guerra. A chama, anunciação dissidente do além-mar, distância medieval e monstruosa. Abíssica dentada desfere o felino ainda, insaciável como a vida.

Então, Ele escreve a petróleo no fundo e à tona do mar que proclama a fornalha comum. «Não há lugar para ventos de intersecção no vácuo do texto!» Sopa de letras que se esboça aérea, a distância ilusória dos pára-quedistas estropiados de centelhas nessa chuva apocalíptica.

Ego que colapsa e ricocheteia ante o tecto e solo de si mesmo. Ecoa ou reverbera hoje num curto lapso de percurso, por esta boleia em que o tédio traz ao lar a novidade, e ante este exercício de exposição artística em que o monóculo de apreciá-la é uma distracção nocturna, recai pois como um estilhaço de monóculo uma verdade inesperada por detrás de uma imponderada análise do impacto. Não no espelho de uma qualquer sala mas do outro lado, a própria imagem. Cai súbito sobre a distracção a noção clara como um quadro de museu, que lá dentro da obra que espelha, está algo de igual, perfeitamente igual a mim mesmo. Não igual em como sensações ou expressões se fazem assemelhar, tão pouco igual em uma determinada metade de um todo. Igual em como uma equação faz equivaler duas expressões diferentes da mesma matéria, matéria de um outro planeta indeterminado. Matéria que contém em si um raro ensinamento inexpressável, uma rara síntese e centro de diversos pólos de existência, algo que só quem conhece tão profundamente como ao próprio pode identificar.

Estranhamente esotérica na fotografia, a clareza desta nascente é de uma evidência tão transparente que se estranha. Era essa então a consistência inexplicável do rio, aquela ténue assinatura ou resquício vibratório de sua ondulação era afinal uma familiaridade inconsciente, sensação invulgar e de difícil cifra dada a rareza de tal simetria na passagem distorcida.

Desemboca-se pois num limiar emparedado mas que é também equivalência, e há beleza nisso, não havendo própriamente porto qualquer nisso. Resta só a questão próxima: aonde me leva este um café mais.

Domingo, Novembro 06, 2011


Que a loucura se instalou quieta.
Pelos passeios do passado veio a pé
dissimulada de pedinte ou de André
a tomar conta da esquina onde inquieta

se espartilha a viagem, linha recta
de um encosto ou consolo que era fé
por templos urbanos fáceis. Nhé.
Da rotina a paz de alma ora insurrecta

era falsa e veio baldear o instinto
a imagem de uma esquina em que pressinto
um vendaval de estilhaços de casas

e lestos membros voadores que finto.
E tudo isto dissoluto em absinto -
tudo isto, envolto em nuvem de traças.


O êxtase do absurdo...

Outra vez as paredes ganham disformes colorações e astros se entrenham na clarabóia translúcida de um céu estranho.

Estética infiltra-se no sentimento. Loucas projecções astronómicas de um ser inflamado e que se eleva, azul forte e paralelo pela bruma.

Por cauda os cabelos revôltos, crescentes e em passagem. Iconografia e o extravazar de loucura a tomar conta de mim-noite.

Um "Ah" perfurante a interjeição. Caem e recaem crivações e crispações o colo de um chôro novo - parto, parto e parto ainda.

Espécies num parto único - a pequenez da ficção a marcar pungente o idioma e universo. A loucura outra vez. A loucura ainda e sempre. A loucura aqui ao meu lado, a ditar e a escrever o ribombar de mais este relâmpago. Céu físico por cima, tão por cima, tão pesado...

Brilho amplificado agora, vidro estilhaçado agora. Música que esmaga, música que alaga de caos e brilho estes.

A agressão de ser em reviravolta inesperada, toma conta e destrói. E é todo um Nada. Que se pinta que se vive. Tôda a míriade antiga do que é dentro e sempre o foi. Toda a miríade sonhada cada vez mais forte e imagem. Confusão mais e maior, o espanto, um quase terror! De tudo isto e o volume e tudo isto mais.

O medo de levar-lhe a mão e ser real... o medo de levar-lhe a mão e estar ali. Todo este sem-fim... (momento crédulo)

Por um momento mais,

deixa-me vivê-lo, deixa-me querê-lo, este pedaço mais

de loucura em meus anais,

de loucura em meus quintais.

E era uma selva,

que se cerra.

Sábado, Novembro 05, 2011


Por entre as trepadeiras do quintal
um desalento verde e o mural
de haver o vento a agitá-las e um sinal
de haver a alma a abandoná-las e a cal.

Espaço de desmazelo; uma miragem
que é todo um novelo e é a aragem
as garras afiadas, uma margem,
a loucura afiada em camuflagem

e uma arte que se esconde no ruído
do soneto ou da pistola o alarido;
dar forma à côr de haver um sentido

no barco que navega esse instante
parado em ser pintura o almirante -
pincel, tigre, arma, um rio vazante.


A caminho; os contornos
de nada com nenhures são
por entre nenúfares o não
entendê-los; claustros mornos

que ilustram a poesia
de ser que, mais uma vez,
o desdizer de um português
entrusado em distonia.

Sua loucura uma que sua
ao calôr de não soá-la
e extravaza feita a mala
o rio que é o brilho da lua

e o frio dos glaciares -
epicismo, uterina nostalgia,
ou lembrança outra ainda mais vazia
que ecoa pelos cantos lombares

o trote nessa mesma planície,
estepes de o sonho perpassar
a gaivota, o momento a sobrevoar
a viagem e o vento que esqueci.

Tudo atrás; para trás, lá atrás
ensinamentos que perdi
nos entroncamentos que vivi
sem saber quando e onde - tanto faz.

Alma que vagueia à sua sombra
e é de mim escrevê-la um outro eco
o sentido que vagueia e é o beco
em que se perde e chama de penumbra

a luz do passado e o escuro selo
de a poesia perder significado
à luz de um candeeiro tresloucado
em não iluminar que o amarelo

do papel da carta sem destino
e um adeus que por ela estrebucha
entre os dedos e uma rosa murcha
que um dia floresceu sem destino.

E assim se perde aquilo que era
a pureza de um poema sincero
por uma turva fogueira; incinero
a correspondência e é sincera

da chama a transcendência e bela.
Todo um vermelho que é quente e diz
aquilo que em mim derrete, e diz
a perda que em mim verte o som dela.

A crepitar, o nocturno do oceano
é em meu lar uma quimera velha.
Nada é mais verdadeiro que a telha
que alberga esta fera e este insano.

Loucura fora de era, a minha sina.
Palavras sem cabimento. Destroço
origamis e o momento e um qualquer esboço
da morte em sua dobra, a lamparina.

Desfaço a alma num sofá gelado
e regresso aqui ao sítio e à sala
onde a orgia do poema é a tala
de quebrá-la e ao gesso molhado.

Mil esboços negros e a loucura
a única acompanhante. Mar quebrante.
Insurreição e advérbio a juzante.
A espuma ele engasgar-se em sua usura.

Imagens de arcaboiço num trejeito
de dar forma ao informe de a curva
se ter dado por ali onde era ruiva
a côr de a maré ter passado. A eito.

Soçobro colorido que desfaço.
Mar agora desgarrado que abraço.
Café que tomo e é um outro braço.
Dôr que pinto agora, fim de maço.

Adormeço e pinto em mim uma nuvem
descrevendo a cinza de um cigarro
que é ainda um comboio e desamarro
dele a tinta, o trilho e a fuligem.

Para uma fantasia ainda há tempo.
Para uma variação de uma morte
há sempre espaço e a agonia consorte
é sempre do agrado no seu tempo.

Que desvaneça pois todo o espectáculo,
fluxo de rio no mar do vernáculo
onde há sempre do polvo outro tentáculo
a abraçar dançante este espectáculo -

o momento que antecede o seu veneno.
Incerta a dança - abismo ou sintonia,
ondulação que entrança a alma em maresia
de uma alga formar um sonho pequeno.

As partes de seu côrpo a última voz
estendidas ou debruçadas na areia
de dizer ou procurar o que clareia,
e a dôr por fim do não alcance, a sós.

Quarta-feira, Outubro 26, 2011


(De sexta passada, à noite)

Revôlvo e procuro a criatividade, numa elevação em catadupla que é falsa matéria - agitação; estremeço a hora e calcorreio neste frémito absurdo caminhos entrepostos, extravazantes artérias entroncamentos do cerebral maquinal aldeia; acordo, e constato que acordo, e discordo, e acordo, e discordo; Disco, o disco, o disco! que gira e toca e gira esta sobreposição repetente de indormência, estrebucho do sono não-sono que é querer, querer voar, querer soar e ultrapassar a mera métrica, ir além de rappers ou rimas (sonoras). Tudo porque há que acreditar, no maior, no eu maior, no ego de persistir que é o motor objecto disto; Ela, aspiração, Cafeína. (Ritmo ou sequência Maíusculas.)

Oh, a destruição pela positiva que é enquanto se acredita e os gongos do agora são suficientemente ensurdecedores.

Oh, o caos simples que é o gerar caos pouco simples, extempérie de partes recicladas do Propósito Real que é por lá por "onde", e cuja latência pende e verga e se torna enfim geradora - há forças motrizes por detrás dos vernizes, do estalar dos vernizes; dizem as não-revistas que onde há vernizes há varizes; acredito mas desacredito, pois:

sei lá, é tudo uma questão de (outro) não forçar na interpretação e de verificar, agora sim, o espaço em preenchimento, mutante de potencial, ebulição e confusão a acamar na coragem expressa e confessa que será então o novo papel da Humanidade.

Oh, Oh!, interjeição de mim. Alunar no antigo antigo, o início, a parte que é constante e subleva o carnal animal dispersor, alguma viscosidade da demência apenas como o enxôfre que escorre das partes musculadas e vivas, bem assente e firme o Minotauro cujo cotovelo é assente em força e prenúncia no joelho de flectir e preparar, personificação do animal estar à tona do labirinto e silenciar agora o esbaforir incómodo ausente.

Tresloucados vícios e derrotas os despojos só. Agora é... é....

Quem sabe. Amplificadas as virtudes mas também o difícil, espaço megafone do indefinido, de tudo um "quem sabe?".

Quem sabe.

Desistência ou descanso?

Quem sabe.

"Sabes?"

"Sim sei. Relaxa."

"Mas eu estou, é isto."

"Bolas, bolas. Vou agora ter que explicar que não se trata de te acusar que não estás? Não. Se estás estás. Se é isto é isto. Mas não vou nem dizer nada disto que (e até porque) apenas fiz eco de sequer pensar que, Bolas! nah."

«bzzzzzzzt» (som de circuitos) "Sim, mas eu não disse isso. Apenas disse isto."

Cansaço.

Adiante - Que hoje é um tão novo dia noite. Tão maravilhoso quão os grãos de sol e os raios de café brilhantes exilerantes.

Oh, máxima país, ciência-prazer de reportar ao e dirigir para "lá", busca-fazer de não mais sentir, falta do isto, de não mais sentir, isto-aquilo, de não mais sentir, menos, de não mais não mais, não mais.

Romper com as amarras Zen do perpetuar, fórmula permissividade, pouco.

Ah, mundo-droga e "e"s tantos.

Ah! Oh! Uh! (Citação de filme do Bruce Lee. É só cultura.) Mas chega. Saio do palco película. Exaspero mas não desespero... Uff! Aguentei-me à bronca. Que treino. Que Nortadas. Que desnorte. Uff! E suo por todos os poros.

Como o cancro é a morte do reles plebeu, o avc é a morte do artista.

E que morte.

Uuuufffffff (isto já não sei de onde é que estou a citar. Fica pra quem quiser sitiar. Ah boa, dos Sitiados. O quê só porque o nome é parecido? Isso e cenas.)

Isto e cenas,

resumindo

e conclu-

A

V

C


(De quinta passada, à noite)

Olha. Um blog que fala.

"
Fake.

O que é que tu queres daqui?

Fake, fake.

És tão fake.
"

:\ Pois isto hoje não dá. Empenou.

-

A questão aqui subjacente é que o tempo da acção não é o da reflexão.

De todo.

Alimentar a alma, o mote primeiro e único. Só depois o depois.

Não há um antes.

Tudo é zero e do início; efervescer com a chama, ou deixar cair as cinzas e respirá-las lentamente em asfixia - esta a bifurcação. Nenhum ponto morto.

Nenhum desvio; as ilusões e o escape criativo atropeladas na esquina dobrada e desfeita.

Assumir; dar o peito; ir em frente. Com verdade. Com toda a verdade. Nada mais.

Da coragem, e cenas.

Terça-feira, Outubro 18, 2011


De regresso à estrada pouco alumiada do que não é real. Por passageiras sugestões de claridade se participa nesta não-viagem...

Se é verdade que nas noites em que o céu está pouco claro, o brilho de um cometa incita a que os espíritos perplexos se arrastem consigo, não menos o homem se queda entregue ao trespasse pela essência escura e contrária em redor. E pelo campo afora tudo o mais é tão naturalmente indistinto e mistério quão as luzes escasseiam mais ainda, as traças o que resta visível da noção desconfortante de baldio.

Candeeiros trémulos... Para onde? (E a razão?) Pisa-se na medida da demência a entrega ao nada, tendo por escala ou destino certos a insolvência da viagem, o estar-se perdido nesse mapa astral por trazer no bolso físico. Eleva-se para se entender que a altura é ou tornou-se uma espécie de colapso com a falta de sustento, a consciência dissimulada de tédio e vice-versa escrevendo a lei da gravidade no plano da altura fictícia. E a lei essa, revôlta em não haver caído senão onde se sempre esteve, é o colidir com aquilo que é a memória sensorial dos vislumbres fotográficos desse hipnótico rasto branco que são os pózinhos de magia que esporádicos se fazem libertar à estratosfera.

...

Halos de côr arroxeada ou escarlate. Halos em vibração, halos em diluição. Mais vibração... E súbito, a percepção de que não se trata de um exuberante cometa. É em verdade todo um Outro Universo, uma neo-génese em bruto e absoluta, todo um ilimitado esplendor galáctico que ali, na mera finitude da possibilidade cósmica, deixou pintalgar a sua magia supra, e transliterou manchas de tudo o concebível e o inconcebível. É nesse preciso instante e em nenhum outro, é nesse ínfimo milionésimo de segundo em que toda essa humanamente incomportável compreensão do que por ali acabara de passar se abate esmagador, e tudo se transfigura, tudo assume uma face coloridamente reveladora de elementos do inexplicável; numa milionésima de segundo em que saltam ao ecrã da nave ou exploração, a noção de que tudo é ali mais e maior, de que tudo é ali o que não é em mais lado nenhum, ou de que tudo é ali.

Mas no instante seguinte, o mesmo ecrã ou exploração apaga e apenas é de observar um baço reflexo do real (expressão indecifrável). Não existe explorador do paralelo; tal é uma profissão históricamente do lado de cá. Em rigor, é quase paradoxo a latência necessária do concreto na novidade. Não é possível.

Mais uma vez, não é possível.

...

Condenados ao inegável, todos os visados estão remetidos a regressar por de onde vieram, perturbados pelo eco desse esplendoroso mundo sinfónico, e mais que cegos só por lhes ser nítida na terra seca o decalque das suas pegadas idas, bem como por a luz dos candeeiros que ressurge lhes humidificar a visão com o ardor melancólico da sua vaga claridade.

Tão vaga ao pé Daquilo... de todo Aquele mistério... de toda Aquela magia!...

Domingo, Outubro 16, 2011


Ornamentos de Grécia Antiga, cénica de um arcaico palco ou estrado. Os póneis oscilam na vertical da sua dança, o seu olhar arregalado e distante, pautados pelo ranger da madeira que os anos farpam. É a ela que circulam, é por ela que circulam, e assim será enquanto a hora do circo.

Casa de fábulas esvaídas, flores em torno a um claustro. Pinta-se de outra descrição a redoma que eterna consta da condição dos primeiros filósofos, homens solentemente entregues a metaforizar os limites das suas metáforas, os contornos da sua existência o decalque ensombrado das cavernas dos primeiros, e em particular deste mesmo parapeito virtual.

Fica imperfeito e surrealista este seu mesmo quadro, janela de linho desfiado aqui e ali, carcomido acolá. Pois que é noite e não dia, por sobre os vidros da alma.

Terça-feira, Outubro 04, 2011



Matéria da ante-ascensão, vertigem que se descreve circunflexa entre as nuvens. Pensamento contínuo ou vapores do mar-viagem, este difuso sentimento branco subtrai à alma parte substancial daquilo que se sabe. Bilhete de ir, sobretudo (não importam agora as modalidades que o caixeiro do Destino coloca à disposição). Como transgredir, o único mote que demarcaria ao fundo o horizonte se houvera contra-sentido. Paradigmas transvertidos, ímpetos destrincheirados, estalidos na harmonia caos, o desequilíbrio da super-nova, o cume da dimensão.

Isto tudo, ou olhar-te nos olhos e parar o tempo, ali naquele altar de admiração desconcertante em que tudo é fotões, décibéis e terramoto. E deixar assentar todo o fascínio sobre o medo que se tem do que é divino. Assim se recebe. Assim se pinta a Beleza na tela de um simples aqui. Assim se esboça o Amor na folha em branco de estar.

Assim se droga a Dôr e a Razão.

Freia de novo o autocarro... a minha paragem - tem de ser?

...é...



Erupções mentais. O animal racional tenta violar o vácuo. A fresta no nada é um idioma de ser. Um atractivo idioma estrangeiro. Superamos o agora, almejamos, e tornamos a cair na delinquência da matéria.

Oh, povo que se ergue das catacumbas, geração semeada dispersa, oh, extravagante nós que é o homem-rapaz à frente do computador, plural fervilhante na redoma do zero-um.

Paixão-tinta-amor, esse universo desdobrável que apenas requer gotas de limão-côr, que apenas requer a alma de olhar para ele, de ver por ele fora - pois que ele é contido no escuro e é a luz da lanterna.

No exercício do além, tudo é lá algures. Cérebro que se reprograma num mundo-"onde é?". Incerto mas pleno, o estar lá. Louco mas total, o sentido. E faz!

Afogo a realidade. Correcção - afogo a irrealidade. Verte assim o preparato da Vida, abafando o soluço de ter que regressar. Acordo à infinidade. Admirável mundo novo - éter-amanhã-sempre.

Segunda-feira, Outubro 03, 2011

Há um bar junto a uma calçada estreita e esburacada, devidamente tapeteada pela sombra. Aparentemente banal e pouco frequentado, é difícil estimar que atractivos realmente mais teria este pequeno recato, para quem inadvertido se deixasse tropeçar pelas curvas tortas da ruela.

Repleto da coloração que lhe dá uma colecção difusa de pequenas peças impressionistas, de pinceladas que evidenciavam uma espécie de luta para não recair na pureza da respectiva abstracção, o ambiente é indefinido. O dono apoia-se no balcão de madeira mal conservada enquanto fita um pouco abandonadamente o espaço comum.

A noite tinha tudo para ser costumeira. Por algum acaso desta, ou apenas por falta de alternativas, alguma clientela dispersa chegava para discretamente recostar-se indistinta, em geral fazendo-se acompanhar de uma aguardente por cabeça. Assumindo como que o papel contratado de consumidores, as pessoas deixavam-se enquadrar perfeitamente na tela desta observação. Assim o conjecturava o dono do espaço, preocupado com as repercussões das presenças física e metafísica deles nas dimensões da arquitectura circundante e conjunta, concentrado em particular na ausência de enredo que as interligasse, na intangibilidade do significado que imperava cada semblante, e em como era manifesta a sequência de imprecisões erráticas que prenunciava sempre a inconclusividade acompanhante da sua mesma extinção, sobressaindo tudo isto à semi-distância deste bem posicionado espectador. Descrevia essa sensação de conluío das formas com a curvatura progressivamente mais acentuada do arco do seu olhar, do seu corpo apoiado na mesa, e do próprio enfoque da sua observação. A nitidez do tédio era crescente e inevitável; como um animal mitológico que se alimentasse de sonhos, impunha-se gigante no centro da sala a bafejar todo o ambiente de uma opacidade turva, e trazendo assim fatidicamente ao bar a única qualidade omnipresente que antes se tinha apontado por omissa.

Mas esta não era uma noite costumeira.


Quarta-feira, Setembro 28, 2011

...vem de longe

de longe - ffffffuuuuuuu

Quero captar esta emoção que irrompe finamente pela noite, delicada balística do ser-oeste... resquícias de verbo e drama impõem-se no espaço despercebido, fervilham no frio da hora, libertam-se no apartamento... É só. Mãos que reagem à cócega, os dedos a sinalizar que haverá reacção, trejeitos.

Por sob o tédio de enfrentar a alvorada, sol elevado a demarcar o que é coberto e o que o não está, o que é presente e o que é possível que o esteja, e a tez a ressentir-se secamente, à radiação.

Ténue como o capricho de o dizer, a voz que se aproprie deste sem-fim de nada com nenhures, desta poeira que resulta de uma projecção de uma emoção chocar com as notas de um piano em surdina que teima em trazer aos passos taciturnos a noção estática de melancolia, sob a quietude imensa de não exaltar o desespero esbatido, sob o tejadilho de memórias como vizinhos, que por vezes arrastam as suas solas gastas ao soalho irrelevante, e que não somos nós - míriade uniforme de disparidades, dobras no lençol de ir dormir ou de qualquer outra banalidade que se siga.

Ressoando na longa cauda da serpente-noite, o tumulto do deserto, a paixão da secura, o contraste que ondula pelo mar negro e simples como um cântico de sereia perdido e disperso às brisas ténues mas cortantes. Marujo, proa, mar, branco - parede.

...terra à vista...

Entoa um arpejo último,

arritmado,

prolongado.

Como um suspiro se arrasta sem fôlego para não ter (fôlego).

Domingo, Julho 03, 2011

Grande pausa cardíaca,
vermelho-sol
no grande átrio
das emoções,
pessoas desfilando
os seus destinos.

Onde está
a vida
solitário-social
que é isto tudo,
ininterrupção viva
ou morta
do sonho e dias?

Porque arte é investimento,
bolsa de valores
que é o homem,
o ego
de chamar "bom"
ao que nos toca,
ao que nos beija,
ao que nos fere.

E lá por baixo,
as cabeças iluminadas
(artificialmente?)
por este nada-sol
na sua passagem
para o outro lado
da data,
aqui.

Alguém
ou ninguém,
em pouca diferença
para lá da pintura,
tinge apenas,
passa
apenas.

Momentos mil
e uma nova vida
em falta,
antecipação do ser
ou não-ser
em negação -
estatuária do caos
que é o cosmos,
espaço.

Pontilhado monumento,
anfiteatro -
reflexão.
Arte pendente
e discreta,
candelabro
de um futuro
e do medo
invertido.

Conforme o presente
se infiltra no sonho,
o sonho se projecta
artisticamente
numa linha curva
que erra intermitente
a dimensão
e executa
intermitente
a coragem.

Valor
na esquina de projectos
e o sentimento
do sempre
que é a formiga
que se afasta
alguns centímetros
e retrata o horizonte
com a legitimidade
de uma formiga
em trilho aproximado.

Especulação,
deriva sistémica
que nos traz
ao berço-mãe
de acreditar-chorar
o nós
em escala de si
completa
e maior.

Temporal menor
e embarcação do passado,
poema antigo
recuperado e desbotado
no-pelo fluxo,
tempo e emoção.
Regra ou tragédia?
Alma ou comédia?
Ilha-naufrágio:
maus hábitos,
habituação.

Quinta-feira, Outubro 28, 2010

(de sábado)

A deturpação dos sentidos,
do sentido,
de tudo.

Aproveita-se a inspiração
da desinspiração
para expirar
mais um pedaço
de realidade
.

Segunda-feira, Outubro 11, 2010

Algures perdi a noção dos meus apontamentos. À medida que retomo novas rotinas velhas, dou por mim sem saber o que é mais correcto valorizar, se o tempo ou se a passagem do tempo. Vasculho (pouco), num absurdo estremecer de bolsos, ciente com o gôto das respostas fúteis, transposições que se sentem mãos na garganta. Farto destes posts estou eu, e da deriva inútil dos pequenos berlindes que se intrometem no jogo da memória, laivos de luz intangível, escondida dentro de pequenas e estúpidas circunferências.

Triste como nunca da resposta incutida. O alinhamento, astros estagnados em ondulação bem regrada, a mortandade de usar o tempo, falsos rubis nunca rubros.

A palavra "nunca" surgindo sempre em reforço do que não era ou será. Escolhas ridículas amontoando-se num grande baralho raso. Pedregulhos irregulares e pesados.

Nisto, sinto que encolho. Caibo mal em mim. E transbordo.

Para trás, alguma viscosidade mais deste preparado pouco solúvel. Que escoa assim mais um pouco.

«Amanhã, fará sol ou chuva?»

(Gira a alma sobre si mesma.)

Terça-feira, Outubro 05, 2010

Que nos tentemos agarrar a algo, a prova de que já se nos escorregou da mão.

Terça-feira, Abril 27, 2010

(De há dois domingos:)

O mundo aterra defronte; a luz pálida empresta alguma realidade aos prédios opacos. Como um enjôo, as primeiras pessoas convulsionam já levemente os passeios e passadeiras. Padece a cidade daquela azia anónima que antecede a azia própriamente dita. Por sob este cenário mal iluminado, os actores acompanham o guião a meia emoção. Mal reclinado numa cadeira gasta, um poeta pretende a cenografia respectiva. Tenta pintar o verbo, enquanto a engrenagem se não instala em definitivo, exterior e maquinal como um comboio em que o todo embarca rumo a uma paragem qualquer. O destino de hoje, sem ser incógnito, é supérfluo de inviolável. Há maresia naquele gingar de carruagem, e nas guinadas pré-programadas pelo percurso. Abafada e inodora, mas maresia. O enjôo aumenta.

Entre os demais passageiros, hipnotizados pelo instalar-se da frescura e luminosidade matutinas, alguém deixa pousar brandamente a sua mão de encontro ao vidro. Como que algo de sagrado emana daquele pequeno parque verde, que em câmara lenta se perde com dois ou três peões que o atravessam plácidamente, com o casal de namorados que nele sorri de mãos dadas, e mesmo com o sem-abrigo que em seus bancos viu um último reduto, senão de conforto ou liberdade, pelo menos deles tão ilusório quão o ar frio e os sons do tráfego não distante o permitem. A mão deste passageiro atípico está aberta sem estar espalmada - talvez num reflexo pré-consciente que, como uma pedrinha, veio desenhar círculos imperfeitos no lago da falta de esperança. Os restantes passageiros prosseguem nas mais diversas posições - sentados, debruçados sobre o seu corpo, ou agarrando a pouca firmeza o apoio para quem vai de pé, procurando em suma dar alguma continuidade ao repouso que deixaram para trás. Mas na alma, os seus braços estão caídos, como marionetas que aguardam pacientes o início do espectáculo a que obedecerão, com as doses de existência e gesto que se entender apropriadas. Nisto, as portas abrem-se, e chega de fora, por entre o som de passos e pedidos de licença, um eco antecipado das palmas que alguém lhes há-de bater.

Após se ver arrancado da sua espera letárgica por alguém que não conseguia passar, o passageiro afasta-se bruscamente num pedido de desculpas que cai seco como a mais recente rima de um poeta triste. "Estava difícil..." alguém lhe vocifera de trás. Se está. Tal como uma palavra não é a emoção que tenta exprimir, a presença naquele apinhado de gente é tão irrelevante que chega a ser absurda. Tal como a rima é só dois sons parecidos em promessa de harmonia, a conversa circunstancial com um conhecido que acaba de entrar é um placebo fraco para esta ruidosa paisagem sonora. Tal cacofonia dispersa é dura como uma rígida quadra de um soneto trágico. De significações que se perdem na distância, há como que uma paragem adicional algures neste labirinto ferroviário, e da qual por mais transbordos que se faça, não se consegue sair. Por toda a encruzilhada da cidade, as sombras dos escritórios ou das habitações caem sobre as suas mil estradas e ruelas e revelam um beco infinito e omnipresente. Um gato passa veloz, ao abrigo dos cinzentos pouco nítidos. Dois namorados beijam-se no parque já longínquo. Alguém mete por uma viela estreita e mal iluminada, em cuja placa se pode ler "Beco da Solidão".

O sino de uma escola faz-se ouvir nas redondezas. Sem pedir licença, um míudo apressado corre para fora do comboio. A cidade despertou sem pedir licença.

Terça-feira, Março 02, 2010

Percebo hoje com agudeza aquela sensação indefinida que veste um fino manto de tristeza.

É no fundo um certo tédio, que se retorce sobre si, procurando à sugestão da ligeira brisa definir a cócega na pele, sublimar a emoção o que é ar, a côr o que é baço. Até que por fim se queda à beira de restícios de intensidades do passado, como quem fita o abismo de um topo tal que a paisagem é indefinição, névoa acinzentada. Como quem se tenta apropriar de um reino mágico, absurdamente paralelo a tudo. E assim se desvincula da geometria de passar... Da insuportável ortogonalidade de ser com sonhar.

Oh, albergar esta noção de que por sob o tempo e a vida, trago ainda esta gélida paisagem que é o Inverno de ter outra forma, e o qual teimo em não hibernar. Sinto, quando vivo, quando falo, um vago arrepio dessa minha verdade refrigerada, subindo-me à espinha pela distância a que estou dos momentos.

E sobre isto, visto um majestoso manto que apelido de sentimento. Fino como um desenho. Não aqueço.

Domingo, Fevereiro 07, 2010

Algo me inspira. Sinto qualquer coisa de exterior a tocar-me daquela forma. Ao de leve, mas no centro dos sentidos. Prometendo agitar o berço do repouso do que é.

Quero agarrar esta mão invisível. Quero escrever o poema, pleno da vida que bate com o seu toque. Sinto os versos cardíacos a sussurrar: "Mais... mais!..."

Não sei juntar páginas soltas ao livro do dia-a-dia. Como viver esta arte, e ultrapassar a matéria, a realidade (acordos e expectativas) ?

Sei só que uma mão suave fez bater de rompante o coração. Uma mão tão forte que o faz sem o querer, sem o saber sequer. Uma mão que tinge de vermelho o pôr-do-sol e pinta de espuma as ondas, numa praia que era simples harmonia.

Uma mão veio desafiar o quadro. As ondas ressoam cá dentro. Num apelo lindo e escondido como o de um búzio. Enrolar-me na espuma e aceitar a maré - que ora arrasta consigo, ora devolve à orla costeira.

Sublime e poderosa Natureza.

E um quadro inacabado...

Sexta-feira, Janeiro 01, 2010

Fluxo intermitente.
As comportas abrem-se,
devagar.
Gotas de emoção salpicam
o trecho curvo
e as margens são muros
de pedra
esculpida fustigada.

Passagem parcial,
rastos de pele em sangue,
restos.
Folha a bóiar encharcada,
Estupefacção da ânsia,
Desenho classicista,
Agonia do contraste.

Madeira embarcação,
árvore horizontal,
árvore deitada abaixo,
terapia ou amnésia -
A espuma e o medo
tingidos de branco
desde a quilha
(para trás).

Transparece azul
a fundura turva do rio
sob o espanto,
distorção ondulada
(reflexo e percurso).
Da dôr a viagem,
da vida um segredo
profundo.
Dissipação.

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

E no entanto, há as que teimam em ferir os olhos e a alma como um sol perigosamente próximo. Um exemplo. E faça-se erguer o volume à altura de as suas chamas.
E, se tivesse que explicar
algo acerca de mim,
se houvesse algo, alguma vez,
que tivesse que ser explicado
aqui, ou noutro lugar
em que o desafio serve de estímulo
temporário
à ilusão
de agir,
em poucas palavras
tentaria dizer
as muitas palavras
que se iriam formar
em torno das palavras
que o não sabem dizer.

Sucinta e fugaz melodia,
aquela de tantas músicas
sempre diferente e a mesma,
uma que convida a acompanhar
o acompanhamento que é essa melodia
no seu convidar-nos a acompanhar,
aquele som que tinge de atenção
o coração que era latente
no vago latejar do seu tempo,
nuvem fria sob o sol quente,
sim, essa melodia que sopra
e destapa a nudez, o sentir,
faz lembrar aquele casamento
da ideia de ser - não poder -
com o misto de querer e tentar
- e sofrer - .

Sons na mente, solene projecto;
como qualquer melodia, mente.
Um trajecto perene,
o ocaso.
O cérebro,
um corredor de distâncias
veloz na partida
e rápido a cansar-se.
E assim castelo
se sucedeu a castelo
num reino de cartas
sem remetente,
que é o nicho do sonho,
o sonho de um nicho,
sonhos e nichos,
confusos,
difusos,
desusos.

Me abstenho de novo de ver
- abro os olhos -
e a noite é pálida como uma criança,
e o dia é tórrido como sempre foi,
e andar cansa como qualquer dança
à melodia que cessa e avança
pela orquestra de não haver tema,
pelo horizonte de aqui
e os traços rasgados de ali,
longe como os nervos perto,
um longe asfixiante,
cortante,
como a navalha
que estralhaça o mapa.
- "Poisa lá a mala...
É hora de desistir outra vez."
O desertar à missão
que é o deserto,
sempre perto

e a languidez arenosa
de perceber que das notas,
que do requinte do trecho
se espalha ao vento a beleza,
ficando um só tinir oco
que é informação
vestindo uma túnica
proporcional
e seca.

Do mistério da miragem,
da complexidade do novo,
a mera ortogonalidade
e um sabor a sangue,
pouco.

Sábado, Agosto 29, 2009

an inner trial
liberation of the presence
does but provide frail contents
and the colors dissipate
torn photograph
thin arms stretching their hunger
from within the bars within
...love's sentence...
the heartbeat, pounding
the rhythm of yearning
aging rhythms of life
sound and anxiety
oh, suspiration
the lesser smile of acceptance
flapping doves high above
grace over the turmoil
when the meaning fades
factories shutdown for the night
clouds are shades in the night sky
pollution disperses slightly
the eyes sleep
soul bathing in a puddle
swamp of the persona
remainder of coffees
and unsure will

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Retorno à grandeza;
reviver a grandeza;
ter algo em que firmar um encosto à turbulência do presente.
As glórias já sonhadas,
do ontem um hoje.
Acreditar ou desacreditar?
Dilemas do dia, dilemas da noite.
O tempo que passa no peito.
Tacteando o subconsciente,
à consciência penando,
dorme-se de viver,
sofre-se de dormir;
não sei se ceda à luta,
se trave outra,
ou se ceda, simplesmente.
Morre-se lentamente
neste templo inacabado
em que almejava adorar a uma entidade indefinida,
e em cuja indefinição uma vez mais
perdi a imagem, perdi a visão.
Por recurso último, as tais obras antigas,
estátuas de estética
e de pedra.
Ó, alma hoje galeria,
que gládio é esse
que empunhais tão deserta
e só?
Firme dessa conquista,
como se disso dependesse a tua própria memória,
o teu próprio ser,
e como se houvesse alguém, dessa maneira,
que te visse ou sentisse roçá-lo,
acutilante como uma lâmina.
Marcos na estrada,
até que esta acabe
ou o burro se canse.

Quinta-feira, Julho 02, 2009

E em renovado tributo a uma obra de arte ímpar na história do cinema, deixo uma versão preliminar da parte final do script que em nada compromete a sua grandeza épica, pecando apenas provavelmente, na visão de Milius, por ser demasiado explícito face à cadência que ele ambicionara - uma de silêncio a reforçar o contorno estético de um conteúdo profundo e que servisse de mote à reflexão e à introspecção.

---

Holding his father’s broken sword, moving up in a swift arc and down, chopping into Thulsa Doom’s neck and shoulder...

Doom sinks to his knees.

«You would kill your -- father??»

He withdraws the blade and wheels it down with another mighty chop -- and another.

Each blow shakes the crowd and drives them back.

He pulls back the head of Thulsa Doom and the body falls back, sliding down the stairs. He stands full on, looking down on the thousands of lights, the head in one hand, his father’s broken sword in the other. Silence.

Conan (voice over) : «He was right -- the answer was not in the blade but in the man... If my father was the light of day -- Thulsa Doom was my night...»

He sits on the steps and watches as the lines form myriad patterns of light far below him.

Conan (voice over) : «They were his children and now they are like so many orphans... but like myself -- they are free.»

Quinta-feira, Junho 18, 2009

Há como que duas margens: atravessando a ponte, enredamos por sequências de imagens que como lianas fazem baloiçar. A oscilação de ser, uma vida mental de pesquisa e diluição. Onde um grande peso desce e esmaga a noção de realidade, subvertendo os mais recentes planos por articular. Enquanto houver fantasia, enquanto houver sons e côres, a alma recatada subsiste e obedece. Servo temporário do apelo escondido à sombra da imaginação, o caçador furtivo habita a ilha deserta que há no outro lado de um rio.

Palette e mistura

Glória vã na fé,
vã fé na descrença,
sabor a desavença,
açúcar no café,

palmilho incerteza
sem saber o porquê
do poema que se lê
debruçado na mesa

que tem pernas em vê;
inspiração que retorna
sem que haja para o quê;

sem que haja para um onde,
abstracção que se entorna
no mistério que ela esconde.

---

Tinto e desafio

De absurda direcção
escreve-se hoje o caminho;
da côr do copo de vinho
tinge-se o coração.

Tudo aquilo que falta
o Adamastor se soergue;
do mar imenso o icebergue,
um frio de alma que assalta

e em silêncio se exalta
co' o marujo sem rumo;
e o mar azul sobressalta

à luz trémula da vida
a viagem sem aprumo
e o barco de côr garrida.

---

Tempestade e bonança

Do azul perpétuo
os mares revoltos;
cabelos soltos
na peça em que actuo.

A sede é de Roma,
e disto e daquilo,
o viscoso do Nilo,
de Veneza o aroma,

paisagens que a mente
desenha a côr quente
no cenário que traça.

Quando a tarde passa
deixa a brisa, rente
ao corpo em alma ausente.

---

Ser e não-ser

Um desvio pela maresia;
de Norte ou Sul insciente,
é de novo intermitente
a estrada, que embacia.

Nuvens e soalho,
ponto e contraponto,
ora esperto, ora tonto,
cartas de um baralho -

renasce a antiga cruzada,
a pessoa em morna dança
numa certa encruzilhada

que jamais é consumada;
consciência que se entrança
em seu torno, sem ser nada.

---

Somatório

Após sobrevoar vestígios de maré, poisa no parapeito da alma a noção matemática de que há beleza na solução mais sucinta e simples possível. E nisto a equação ondulada que rege as formas faz também sorrir, levemente, as vibrações implícitas. Como uma flauta que trina persuasora uma melodia nocturna, à qual recaio em fascínio. Contemplo, silente como uma fórmula.

Quarta-feira, Maio 06, 2009

Revisitando sonhos antigos e o espaço de sempre para os perder, sorrindo levemente a mágoa esse embalo. Estas ruas cinzentas e desertas mais não que a casa de campo, e o meu estar nelas a rede presa à árvore só. Emoção reciclada, outra palavra para poesia, estação transitória em que o som esbatido da dôr é já de um simples triste, estrada pontilhada de folhas amarelas. A velha melancolia, instalando-se na mente como a brisa se encosta ao corpo quente, aligeirando o cinzento dessa estrada e arrefecendo essa página da viagem. Sem saber por onde atalhar, coberto de existencialismos fora de época num hoje em que a norma é a de existir, procura-se dispersar a passadas a consciência, mãe severa do sofrimento. Esbate-se o brilho das pedras duras, o deambular por entre elas servindo de confirmação da passagem. Os dias e a complicação cosem-se e descosem-se, sem porém que se dê por remendado aquele último buraco por onde vem escoando a esperança. Alma que falha em se sintetizar corpo; significado falho; desnorte. Onde eram laivos de sonho, é na emoção um grande ponto de interrogação. Neste lapso de reflexão jaz hoje parte da verdade, onde amanhã o entusiasmo traçará, ainda que brevemente, novo percurso híbrido e inconstante de medo e de vida. Mas pagando a factura, nos nervos, no coração, nos sonhos interrompidos, daquelas largas forças que em rigor não possuía, e a que no entanto apelava persistentemente, delas preenchendo o carácter, tentando iludir a realidade, tentando iludir a solidão. Essa avassaladora solidão, a qual quão mais profundamente se tenta ignorar, mais nos agride quando vem à superfície, como um enorme recipiente cheio de ar que se tentasse submergir.

Arde a floresta e suas côres. Um nenúfar poisa sobre o reflexo impressionista disso tudo, beleza diluída no turvo fluxo do que passa. 

Quarta-feira, Março 25, 2009

The purity of senses
but impurity of feelings
arises cathartic.

Amidst the lesser activity
in which self is detachment
a sudden window through time 
opens up for this fresh breeze...

Staring at me, 
the hours, the days kept inside
all these months, all these years...
And there I am,
as all that nothing,
once something;
a sense of surrounding 
and the sense of abandonment
of that surrounding,
for something deeper 
and closer
to the knowledge 
of pain 
and its survival,
that new dawn
after that last curve 
of that last hill,
the imaterial place,
a strong undefined memory
that knows its truth,
that knows its reasons,
and that carries on,
as beautiful as the aesthetics
which lie beyond philosophy,
beyond the shelf that is home
in its social, strained sense.

The disguise wore off those nights,
mostly nights,
in which darkness was appeased
slowly as the moon shone
higher and higher,
the bright enigma of bleeding youth,
grains of sand...

Then, I was.
Today... when am I?
Which road am I on?

Recollection of scattered pieces
failing to form a mirror -
- the only reflection here.

And so one pretends that he's digging,
and forgets that to dig
is to drop off 
one's tools
and return,
and awake...
...free,
so to say.

(Although a shadow shall pass by
and something shall be lost
in translation...)

Quinta-feira, Março 19, 2009

Com tijolos se calceta a estrada da solidão.
- Trechos de perdição... -
- Frestas na emoção... -

Quem me dita a sua vã glória,
quem dela se vangloria
desta vez?

A nobreza morta não esconde o vermelho do sangue.
O pegajoso vermelho do sangue...
repisado pelo incauto caminhante,
para quem os tijolos são tijolos
até tropeçar neles.

Dói-me a voz do estar,
fala esquecida de uma já clássica peça
cujos panos caem à hora prevista.

O palco é coração agora quieto
onde vibra apenas essa mesma dôr quieta
de ele estar quieto.

Segura o nome da tragédia
a consciência furtiva,
calceteira
e cada vez mais
uma personagem mais
neste teatro e percepção
em que a lágrima se desinibe
contida,
em que o céu se pinta
côr cinzenta
(e não cinzento),
nódoa no quadro 
de pesados tijolos vermelhos

e alguns vultos incertos a passar,
surdos como qualquer sombra
ou som de passos em surdina.

Foi como foi.
O odôr a musgo
pintado a vermelho
num papel sem cheiro
e a vida a revelar
fotográfica
a vida por revelar

e os panos a cair
deste meta-teatro
doendo ainda.

E dói tanto,
tanto
...
tanto
...

E resta esta fútil tristeza
com a qual não sei bem o que fazer.
E de repente não sei de novo onde me enfiar,
sucessão sem tempo de linhas sem retribuição,
não-amôr espalmado e gordo
sem a paz das linhas
que definem o manuscrito

ou ao menos alguma novidade,
um pouco de ilusão sem noção de ilusão,
que me não recorde do dualismo real-abstracto.
Isto enquanto se prolonga já
uma menor ligação aos sentidos
desta noção de temática
menos e menos presente.

Das sombras se faz a vicissitude...
...e algures um fim de beco
côr de panos.

Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009

Entrei no hospital. Disse: "Fui atropelado." Internei-me em busca da liberdade. Quão estropiada se torna a missão de quem se nega à condução... O trânsito incontornável da capital dói como um embate frontal. Verificar a chapa... a dura periferia de tudo, o olhar apavorado que as mãos bem abertas não conseguem suster... O protocolo seguido pelas enfermeiras torna-se ele mesmo mecânico. Tudo é labirinto, beco, paredes. A paciência do ânimo fica-se por mais esta esquina. O corropio é um pavio que corrói (não só etimológicamente). Por onde me esgueirar com esta dôr? Para onde, se todos são lá no meio uns dos outros? Qual o ritual que abstraia da rotina, e que não seja vã à luz do espaço sem iluminação? 

Sociedade, dizem eles. Acredito. Sinto-me descabido. Um estereotipo qualquer aprisiona-me a alma desprendida do corpo, do ali da vida. Entre o mim e o nós há um meio passo, sempre um meio passo. Enfim... vou atravessando passadeiras, mecânicamente, enquanto respiro a poluição que não parece poder dissipar-se. Há uma grande ferida na atmosfera. Socorro-me do calôr que ela escorre, enquanto ponho de lado a esperança. O doutor passa-me umas receitas impessoais. Cai a noite como os panos intensamente mortos de uma peça. Espero, artificialmente.

Terça-feira, Dezembro 23, 2008

Havia aqui algo mais... 

Lembro-me de procurar a alma embrenhado em teias de jogo e de mentira. Anos idos... e velas a toda a haste. Fui conquistando pequenos nadas, que regalaram a visão nocturna do comandante. Alonguei o mapa, rompi com a terra firme, almejei com o vento, sem parar. As horas mortas à ondulação fustigavam-me. Foi-se manobrando... cada vez mais alto o mar, no espaço e no tempo, até que enfim aportava na distracção. Quimeras cada vez mais indefinidas...

E agora? Agora, uma rotura terceira, desta feita com o que lavrara e deslavara a sós. Uma nova vida igualmente fragmentária, igualmente de pedaços. E o fardo da mudança, e o fardo do desnorte. E um fado incerto... permeado de sussurros... sussurra a criança "Pssst estou aqui."; sussurra o artista "E eu? Serrais-me os pulsos quando cerrais o olhar! Reles mortal..."; geme o músico, sem abrigo. Sem palavras. Sempre novos refúgios, escuros qual esquecimento. A côr fica no agora (na ilusão). Finge aquecimento.

Tudo é massa, tudo é mão, e aquele desconforto reconfortante que enjoa enquanto não chega a chuva. A chuva de ser sem intermediários. A chuva de não requerer. A chuva - acontecer.

E entretanto? Há sempre tempo para atear um archote uma outra vez. Pôr fogo a Roma, de quando em quando... cumprir o papel de querer cumprir o papel. Porque ainda não ardeu.

Ainda não morri. Ardo em mim.

Quarta-feira, Setembro 24, 2008

vicissitudes do ser...
não queria que isto se transformasse nisso.
refraseando
e incutindo a dialéctica
que o sono permite,
vivamos pois,
ainda que na sombra,
ainda que na cave,
na habitação projectada
que mais não é.

contemplo sereno
do alto do baralho de cartas,
desmontado,
como é insurreição da estima o projecto,
como é depressão a confiança no projecto,
como é dura limalha o lápis com que projecto,
desejoso e aspirante
até à hora da dimensão,
apenas.

rasgão no papel,
e outro, e outro,
aonde é que isto pára,
não há fim.
não há força para lamber o dedo,
não há dedo para ir buscar a força,
só um corrimão que baloiça
à beira da desilusão
e de onde fitamos a áspera sensação
de amarrotados esboços,
de decalcar voltas e voltas,
vincos de projecto,
vincos em mim
de não conseguir sentir
o vento fresco e direito da planície,
o resultado,
o próprio.

E tudo isto para plantar uma árvore...
Não vejo o princípio à floresta.
Não vejo o fim à floresta.
O emaranhado é.
Tolda.
Molda
a percepção
de um caminho.
É difícil avançar pelas silvas,
os pés descalços, enrugada a vontade...
Não vejo o fim.
Não vejo...
(está escuro.
apaguem esta inércia.
apaguem a frustração.)

Enfim...
Meio aceso o candeeiro...
Temperando a noite, o amor...
Sobra lá dentro o amor
a uma luz pouco óbvia.

Sábado, Agosto 23, 2008

the lost feeling
melancholy
yearning for life in dead words

silence it
refrain from it

what else is there to ignite?

ashes fall slowly
sparkles won't lighten
darkness embeds absence

absence of someone
absence of me

the song screams its chorus
but i can't fall in love
can't fall in love with life again

chords fade out
words stop to pulse
heartbeat decays

tomorrow - a weak placebo
today, night lingers
a blurred night
a blurred self

foreign sadness
as if it ain't real
as if it ain't worth it

prolonged
unspoken
dizzyingly low

the whirling fatality
of passing by

(just)

Sábado, Julho 05, 2008

Um, dois, um, dois.

Montanha de gente que galgo,
palpitante de solidão...
Parece que tudo se encaminha já para lado nenhum.
O tal despropósito geral das minhas capacidades.
A tal rudeza do objecto, limalha de engrenagem espalhando-se ao vento.
Inércia móvel.
Presenças desfalecidas - eclipse.
Na antemanhã da proposta, a entrega do subconsciente ao prenúncio agastante.
Terror de não haver como tornear o que foi e é labirinto.
Deserto espelhando o quente difuso dos grãos que é preciso arrastar a cada passo.
Oásis esfumando-se à distância que vai de ser a estar.

A mudança é triste.
Perde-se.
Difícil, difícil... tão difícil...
Adjectivos exauridos
e um desnível na energia.
A vontade invertida à falta de escoamento.
Grande piscina suspensa,
intramarés turbulentas
extraditadas de fora dela.
O riacho é um entretanto,
lapso na humidade
molhado de ervas,
sonhos, emoções...

Pessoa e silêncio.

Um ...

Sexta-feira, Abril 18, 2008

Procuro qualquer inspiração alheia, e uso-a para me enveredar nos moldes de qualquer criatividade forjada.
Esqueço-me e lembro-me. Sou vago.
Quem é a naturalidade em mim? Reflexão perdida à sombra do silêncio ou do outro...
E o quarto ameaçadoramente igual.
Tenebrosamente iluminado pelo dia que desponta. Espreita-se e tudo é feito. Tudo está feito. Não há lugar à descoberta. Não há lugar... para quem sou?
Calça-se a bota, e terá que servir. Ainda que os pés se molhem nos dias do vendaval.
Caminhamos, plural forçado. Couro mal engraxado, pesando a realidade a cada passo mais.
Até já, mundo cruel.

Domingo, Março 30, 2008

Por aqui nada.
A velha teia, e a respectiva fixação pela incerteza.
A tremer de estaticidade.
O coração vago e rancoroso.
Antemanhã em nulidade absorta...
O esquecimento de despontar com os sentidos,
e a consciência revoltando-se.
Derivei hoje progressivamente,
declinando o rumo,
a estrada afundando-me em todo o seu alcatrão.

Sensação de erro absoluto...
Mas afinal,
é só um outro dia.

Valha-nos a regeneração
enquanto não formos cinza.

Sábado, Março 15, 2008

Os dissertantes
procuram ao caminhar
as altitudes
de escrever o vinho,
de procurar
embriagar
a incerteza de estar.

Ladram ao vento
os cães da planície
que poisa o mundo
e alisa ao fundo
da caminhada
o Sonho Apagado,
dissipação.

A côr das nuvens,
quando branca,
é a aura da montanha
que coroa
o espírito e desenha
a canoa
que dormita sem manha.

O seu adeus
é o sol posto,
os tons rubros
nostálgicamente.

Oh, linha do horizonte,
és o cais em que aporta
o silêncio de Tudo
e o som de Nada,
a quimera maíuscula
de que se vangloriam
contradizendo-se
os Neófitos...

Sorrio hoje
a tristeza íntima
dos nómadas,
alegre de passagem
na alvorada
que o Sol invoca
no coração cego
das horas.

Oh,
como choro
quieto
este país
estendido à verdade
das auroras
interiores,
este local em que sitio,
afinal,
a mentira da ocupação
que enfim adormeço
num ponto final.

Maré de palavras,
as frases soltas,
nenhuma onda
encontra a quilha...

Pedaços de vida,
museu do eu,
para que tu vejas,
para que tu vejas...

A rotunda tem música
e eu tenho regras,
há que violar
a pauta
para que nasça
a flauta.

Alegrem-se,
árvores laterais,
que a viagem
é.

(Turbilhão)
(Paz e vento)
(Oriente)
(Ocidente)

Fina flor
que desponta
no asfalto...

Vruuuum.
Semeiam sonhos
os infantes
esquecidos,
abandonados
à beira da estrada.

Congeminam maravilhas
por essas mesmas milhas
de permeio.

O esturpor,
o freio
e o rigor
procuram revoltar-se...

Mas antes,
ecoa a fibra
que tudo liga
e era a aragem
que aqui deixa uns pós
reminiscente.

Quarta-feira, Março 12, 2008

Tem vezes em que só me apetece desfazer da clausura, em que sinto uma necessidade asfixiante de desenterrar a pureza do esforço e da continuidade do esforço. Remeter de volta toda a discrição do consolo que é o hábito, pequenos impulsos meramente fáceis, simples esquissos de anestesia frustrada. Reorganizar a mente, a palavra, o sonho e a aproximação. Regressar. Reconquistar, dir-se-ia quase. Primeiro recolher, e por fim reagir novamente... São estas as palavras desta noite em que me custa o pasmo existencial e a inércia redundante, por contraste ao interior batimento do coração.

Domingo, Março 09, 2008

Inspiro-me
nos teus olhos.

(tudo a desfocar-se...)

Um fascínio natural
soergue-se do medo
e suspira a memória,
dobrada a esquina lúcida.

Encontro a criança
impossível,
intangível
nos contos que foi
o sonho ido,
o sono vivido
em serena emoção.

Percebo o que é
o sublime.

Regresso a mim
de mim.

Aguardo
a tua presença
celestial
que desnudo
utópicamente
da distância triste
que é a minha luta
contra a minha mesma
distância...

a minha mesma distância,
repito,
algo irritadamente.

Tudo isto se passa ao de leve,
no poema
de fim-de-tarde,
o coração pulsando ao de leve
as tonalidades do pôr-de-sol
e o não querer deixá-las partir
noite e sombra fora...

...o cintilante verde dos teus olhos...
...encarnação viva da eternidade...
...para lá de limiares estéticos...
...o verde suave e absoluto dos teus olhos...
...e sobretudo,

tu contida neles.

Sábado, Março 08, 2008

Perseguindo muralhas estéticas
mergulhavam na fossa comum
os alcoviteiros da Liberdade.

Tenho dôr para dar. A dôr da realidade,
vertida sussurrada
ao meu ouvido incrédulo,
teimosamente surdo ao eco do espelho.

Não ultimo a concepção. Sou ligeiro,
e custa-me verificar a diferença
sem a alma que sustenta,
sem os anos segurando a rede
de que pressinto o baloiçar
hipotético
por outra dimensão.

Abafado,
o canto ergue-se de poeira,
pueril
como mais esta madrugada -
e afinal, amanhece tarde
pois as nuvens, que foram água,
que seriam correnteza,
são hoje a ditadura da sombra
por onde espreitam os murmúrios,
por onde espreita a palavra.

A mim,
indiscretos amantes do consensualismo.
Dubito-vos mas sem punhal.
Não enxergo o punhal que vos rasga a saia
de rodar
colorida de sociedade,
imposto fluxo
de energias falsas,
razões sonoras, tão somente.

Critico assim migalhas
atiradas aos pombos,
fazendo referência
a algo mais definido
que se me escoa pela mão rugosa,
esburacada à seiva do Sonho.

Escorre-me alguém que me habitava
a aspiração.
Quem era?

Ping... ping... ping...

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

Excertos de arte não escondem a ruína.
Gloriosamente só. A palavra vem e finge articuladamente, nos espaços vagos que a isso a forçam. Facilitismos, até à hora da verdade.
"Vá, e agora?"
Não pago com o espírito. Sou silente.

Vou portanto às putas.

Aos poucos se polvilha assim a possibilidade, e a tão importante sensação de continuidade. Aos poucos se firma a escassez de recursos que a solidão traz e impõe ao esforço. Aos poucos é mais nítido e seco o quadro do dia-a-dia. Nele figura um rapaz de pincel na mão, estendido num sofá, sem técnica para dar forma aos edifícios, visíveis somente os rasos alicerces da imaginação.
Pago para que algum esboço de contornos anime a paisagem de escombros. Peço tinta emprestada à proximidade. E por vezes ela existe para que sobressaia novo estímulo na construção. E por vezes, é bela a pedra de memória que se ajunta às outras pelo quadro do que passa. Como em toda a interacção.

E momentos sucedem-se a momentos. Entorno pela escrita traços e côres que são já incontornáveis, ao longo dos meses e anos. Evoco assim, como que brindando, aquelas que se dispõem à demanda por Eros, as que se aliam ao artista em moldes de almejar, aquelas que lhes inspiram o imortal sentido de divindade de que é feito o esplendor.

Às putas!
(tchin tchin)

Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

Enquanto Conan procede à cremação do corpo da sua amada, Subotai assiste, deixando rolar algumas lágrimas. Akiro, o mago, intriga-se então:

- "Why are you crying?"
- "He is Conan... Cimerian... He won't cry. So I cry for him."
Trespassando a inspiração, lâminas acordadas. Severas de impulso... Assim é quando se desce a rampa da virtude, o âmago da multiplicidade, apertando junto ao peito tudo o que é insaciável.

Meus amores, florescei!... As tropas pilharão esta terra, cálidas, como o Sol Nascente que a assola. Mais que tudo, mais que a Morte, hoje é o Ser, a Invasão! Letras espreitando por papiros de paisagem, procurando despojar de si as tocas, agitando-se borbulhando por este paraíso fétido. Engodos do que é, forçai a passagem pela dureza física dos portais. Desentalai-vos do círculo, atentai contra a mediocricidade, toda e qualquer!! É nascer, rebentar as águas, e transbordar portentosos legados de ânsia guerreira no primeiro chôro de uma vida.

Somos nós, portadores da palpitação; desencadeamos o Apocalipse. Não há mais - é a vida, a vida, A VIDAAAAA. E bradaremos a vitória, com um urro.

Os modernos e a popularidade (soneto sociológico)

Contemporâneos doutrinavam lantejoulas
onde antes era o clima, a aragem;
cepticismos decalcavam por argolas
o eco e o aroma da vantagem.

E a loucura intimidada profanáveis
exultando a malícia dessas vestes
de que os anjos caídos enfeitáveis,
luciferianas horas e agrestes.

O público discorre, sintomático;
obstando à luz visual sabor
uma batuta sem maestro - plateia.

Diploma de um sonho catedrático,
egocêntrico cego esplendor;
ferramenta e ego - ser sereia.

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

Tremo, no topo da corda... os pés enroscando-se ao se aperceberem da falta de aderência. Pequenos passos de urgência servem apenas para confirmar a desilusão. Não há pano de fundo. Esforço-me, mas só pontualmente tons de verde obscuro parecem distrair o vácuo cénico de seu absoluto. É nulidade de que me preencho, por esta grande corda pendente sobre o abismo. Não se vê quem pega nela do outro lado, mas dá a sensação que se esquece disso indiferente, quando ela abana à brusquidão delineada por movimentos conceptuais, numa física distante e outra. Insatisfatório ao longo da vertigem, o passo adquirindo sensações de queda, mais que preconizando. Diáriamente... os passos de ninguém..

Terça-feira, Janeiro 29, 2008

E chego a esta hora e estou disperso... Como um punhado de pássaros abalroado pelas águias da incursão. Visível, mas inconcluso, o vôo das palavras. Palpita o estanque do sangue nosso (meu). Para trás, a coesão. Prossegue para Norte o sopro do vento, segregando o tempo, nova moradia de quando há só um limitado acompanhamento, insatisfatório na migração - o dos pássaros fugazes esbatidos em pequenez.

Dou a mão à palmatória. Posso apenas sublinhar o conceito de crença - pois que é tudo. (Bem como o de exagero, que é vida.)

Domingo, Janeiro 13, 2008

E este de agora, contrastando:


Abandonei o saco de viagem,
desisti por omissão.

Vendi-me - renúncia -
e os grilos que cantam baixinho
estão lá.

Perturbante zumbido.
Nisto, forma-se a sensação
de que estou gasto.
É todo este som sem mim
onde deveria estar
todo um conjunto de notas
a resolver as tensões
e a restituir harmonia...

Desci a mim,mas voltei a ficar calado
na escuridão feita de antecipações
que é a mensagem por mandar,
que é o número por marcar,
a suspensão indefinida.

Alguém me solta desta rede?
Da mesma noite que o post anterior:


Mas sim, conta-me histórias.
Conta-me histórias, que o tempo é aqui...

O passo é quente e a neve funda.
E o silêncio dos cumes é belo
pois é para lá dele
que está esse canto absoluto,
essa paisagem autêntica, nova,
esse sonho translúcido,
melodia que preenche
e que não sei transcrever,
que não sei vazar.

Conta-me histórias dessas altitudes...

que eu escorro a neve intrometida nas botas
para poder escalar mais umas rochas,
para poder ouvir mais de perto,
histórias fantásticas,
mais e mais perto.

Domingo, Janeiro 06, 2008

Estendo brevemente a mão e pesquiso o ar. Ligeirezas pelas quais me vou dispersando, este dia que gradualmente é a passagem por itens, quase que querendo sintetizar e reduzir a vida... Ao lado, talvez, de maiores desafios - um vislumbre da largura do palco, e procuro agora distrair-me no quarto da maquilhagem. Recordo o que significa fraqueza: não é medo, pois esse é inevitável e ingrediente; nem é ficar aquém, pois que só podemos dar passos, sem garantias de declive e de firmeza que as do solo onde os dermos. Fraqueza é quedar-me recostado na cadeira inconsciente, tricotando esboços de espectáculos, e nunca seus actos de inteireza, repetindo visualizações, mnemónicas de espaços fotografados há muito, querendo cingir-lhes o sentido de presença, repercutir a suficiência que lhes incute a percepção direccionada, coagida pelo hábito, discretamente evitando a sugestão de fins outros onde se pressente o desconhecido, o perigo do desconhecido. Nessas alturas sim, se perde o comando, se perde a personagem, se minimiza inadvertidamente o explorador - e é o arame farpado o cobertor em torno das grandes colinas caiadas de gelo reluzente que há, em nós, por desafiar. São elas mesmas quem reflecte a artificial desatenção e quem, como todas as colinas, lá longe mas de uma imponência incontornávelmente próxima, nos faz sentir, por mais que desviando o olhar, qual a proporção real de ficar. Mostram-nos como é falsa, fútil até, a vida confortável no vale dos caminhos trilhados e dos parques arquitectados. A extensão da cordilheira mostra-nos a imensidão do ser, e é tempo de o relembrar.

Soe o relâmpago! É tempo de afundar as mãos no barro. É tempo de lhe arrancar todos os moldes, com todas as garras, e com todo o direito. Sermos de novo a música, sermos de novo o filme... Mas cantemo-la então! Representemo-lo!

E assim finde épico este apelo ao princípio.